Nataly Rocha no espigão da Praia de Iracema, Fortaleza, CE.
Foto: Linga Acácio
Nataly Rocha (n. 1986, Fortaleza, Ceará) é atriz, performer, pesquisadora e preparadora de elenco brasileira, com atuação consistente no cinema, no teatro, na televisão e na performance ao longo de mais de duas décadas. Formada em Artes Cênicas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará e em Arte Dramática pela Universidade Federal do Ceará, iniciou sua carreira artística ainda na adolescência, declamando poemas em eventos comunitários e saraus, integrando o grupo de poesia Diversos – coordenado por Emanoelli Farias, Sandra Helena e Guto Mota – na periferia da cidade. Desde então, sua trajetória vem sendo reconhecida pela capacidade de transitar entre linguagens e mídias — do teatro performático ao cinema autoral e à televisão de grande alcance —, afirmando-se como uma atriz nordestina capaz de atravessar diferentes gêneros, registros e universos ficcionais, compondo personagens femininas diversas e complexas, sem perder o vínculo com as experiências, contradições e imaginários do Nordeste brasileiro.
Natural do bairro Vila Peri, na periferia de Fortaleza, Nataly cresceu em um contexto em que a arte se fazia presente de maneira difusa e precária, entre saraus poéticos, o circo e o cotidiano de sua comunidade. É filha de Maria do Socorro, que se dedicou à vida familiar e cursou biblioteconomia, e de Seu Ivan, que trabalhou por muitos anos como vendedor de uma sapataria no centro de Fortaleza, nas imediações do Theatro José de Alencar. Foi a partir dessa convivência indireta com o teatro que teve seu primeiro contato com o estudo da dramaturgia, aos 17 anos, ao ingressar no Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT), tendo como seu primeiro professor o ator e diretor Joca Andrade. A experiência de explorar o palco, as salas de ensaio e a vida cênica naquele espaço histórico foi decisiva para a consolidação de sua vocação artística, dando início a uma trajetória que articula pesquisa e prática dramática.
No cinema — linguagem à qual se dedicou de forma mais contínua —, Nataly estreou no longa Rânia (dir. Roberta Marques, 2011), interpretando Zizi, uma dançarina da boate Sereia da Noite. Filmado quando a atriz tinha 23 anos e lançado no Festival do Rio, o longa — vencedor do Troféu Redentor de Melhor Filme na mostra Novos Rumos — inaugura sua presença no cinema com uma figura densa, já atravessada por temas que se tornariam recorrentes em sua carreira: o corpo feminino como território de disputa, a cidade como instância formadora e conflitiva, e figuras que habitam zonas de transição, entre desejo, precariedade e afirmação de si.
Desde então, integrou o elenco de mais de quinze longas-metragens brasileiros e diversos curtas, consolidando sua presença no audiovisual em papéis que exploram diferentes registros de atuação, do realismo ao expressionismo, do cômico ao minimalismo e ao ritualístico. Sua filmografia abrange obras de múltiplos gêneros e propostas estéticas, incluindo filmes independentes — como Morte e Vida Madalena (dir. Guto Parente, 2025), Medo do Escuro (dir. Ivo Lopes Araújo, 2016), O Animal Sonhado (dir. Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima e Victor Costa Lopes, 2016), O Estranho Caso de Ezequiel (dir. Guto Parente, 2016) e O Último Trago (dir. Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, 2016) —, assim como produções de maior circulação comercial, como Reza a Lenda (dir. Homero Olivetto, 2016).
Entre seus trabalhos mais recentes destaca-se a personagem Dayana, uma das protagonistas do filme Motel Destino (dir. Karim Aïnouz, 2024), thriller noir erótico rodado no Ceará e selecionado para competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024. A crítica especializada internacional destacou a força das atuações do trio protagonista — Iago Xavier, Nataly Rocha e Fábio Assunção —, descrevendo-as como “fantásticas”. O jornal The Guardian ressaltou “três atuações físicas intensas e inconscientes, em que os corpos estão frequentemente à mostra, sensuais, mas frágeis”, sublinhando a expressividade do elenco central. Pela atuação no filme, Nataly Rocha teve ainda seu trabalho reconhecido com a pré-indicação ao Prêmio Platino do Cinema Ibero-Americano, na categoria de Melhor Interpretação Feminina.
Paralelamente à atuação no cinema, desenvolveu, ainda, uma trajetória como preparadora de elenco, assinando a preparação de mais de quinze filmes brasileiros, entre eles Cabeça de Nêgo (dir. Déo Cardoso, 2018), trabalho pelo qual recebeu, ao lado de Monice Mendes, o 27º Prêmio Guarani de Melhor Elenco, em 2021.
No teatro, sua trajetória nos palcos inclui a participação em mais de dez espetáculos, com circulação nacional e internacional. Em 2008, recebeu o Prêmio Balaio de Melhor Atriz — atual Troféu Carlos Câmara — pela atuação na peça Curral Grande (dir. Joca Andrade). Entre seus trabalhos de maior projeção estão as montagens realizadas no âmbito do projeto Sesc Palco Giratório, que percorreu diversos estados brasileiros com o espetáculo Encantrago – Ver de Rosa um Ser Tão (dir. Herê Aquino), e A Tragédia e a Comédia Latino-Americana (dir. Felipe Hirsch), com a Companhia Ultralíricos, apresentada em festivais da Europa e da América do Sul.
Além da atuação, Nataly dirigiu a videoarte Árido Brejo (2021), selecionada para o 72º Salão de Abril, obra construída a partir de arquivos pessoais que investiga a desilusão amorosa sapatão, a vulnerabilidade e o flerte com o melodrama popular, em diálogo com os trabalhos da artista mexicana Ximena Cuevas. No teatro, assinou a direção de Outro País (2019), criação coletiva que articula teatro e música para refletir sobre identidade, território, liberdade, amor e poder.
Na televisão, atuou em séries de destaque da Rede Globo/Globoplay como Justiça (1ª temporada) e Segunda Chamada (2ª temporada), ampliando sua projeção para além dos circuitos teatral e cinematográfico. Em 2025, estreou também no horário nobre ao interpretar a personagem Dalva, uma participação no remake da novela Vale Tudo, da Rede Globo.
SELEÇÃO DE TRABALHOS
[Longas-metragens]
MORTE E VIDA MADALENA (dir. Guto Parente, 2025)
MOTEL DESTINO (dir. Karim Ainouz, 2024)
CURRAL (dir. Marcelo Brennand, 2020)
O ÚLTIMO TRAGO (dir. Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Pedro Diógenes, 2016)
O ESTRANHO CASO DE EZEQUIEL (dir. Guto Parente, 2016)
MEDO DO ESCURO (dir. Ivo Lopes Araújo, 2016)
REZA A LENDA (dir. Homero Olivetto, 2016)
O ANIMAL SONHADO (dir. Breno Baptista, Luciana Vieira, Samuel Brasileiro, Rodrigo Fernandes, Victor Costa Lopes, Ticiana Augusto Lima, 2015)
RÂNIA (dir. Roberta Marques, 2011)
[Longas-metragens em finalização]
A ESTRANHA FAMILIAR (dir. Natália Maia, Bordô Filmes)
COGUM (dir. Maurício Chades, Reprodutora)
LILI E AS LIBÉLULAS (dir. René Guerra, Preta Portê Filmes)
VIÚVOS (dir. Mariana Youssef, Ask The Rabbit Entretenimento)
[Participações em filmes]
C.I.C - CENTRAL DE INTELIGÊNCIA CEARENSE (dir. Halder Gomes, 2025)
DIVINO AMOR (dir. Gabriel Mascaro, 2019)
PIEDADE (dir. Cláudio Assis, 2019)
[Séries | Novelas]
VALE TUDO (dir. Paulo Silvestrini, adaptação de Manuela Dias, atriz convidada, novela da Rede Globo, 2025)
SEGUNDA CHAMADA (dir. artística Joana Jabace, 2021, Globoplay)
DESNUDE (dir. Carolina Jabor e Anne Pinheiro Guimarães, 2018, GNT)
FÃTÁSTICOS (dir. André Pinto e Henrique Spencer, 2018, TV Aberta Pernambuco)
JUSTIÇA (dir. Isabella Teixeira; Luísa Lima; Marcus Figueiredo; Walter Carvalho, 2016, Rede Globo)
[Séries em finalização]
DELEGADO (dir. Leo Lacca, Marcelo Lordello, uma produção Cinemascópio)
CANGAÇO NOVO (2ª temporada, dir. Fabinho Mendonça e Caito Ortiz, Prime Vídeo)
[Curtas-metragens]
ÁRIDO BREJO (dir. Nataly Rocha, videoarte, 2021)
TERRA AUSENTE (dir. Noá Bonoba, 2018)
UMA FÁBULA PARA ELDORADO (dir. André Moura Lopes, 2015)
GENTILÂNDIA PARK (dir. Karim Ainouz e Marcelo Gomes, 2014)
CLÍNICO (dir. Irene Bandeira, 2014)
A RABECA (dir. Irene Bandeira, 2013)
ODETE (dir. e Clarissa Campolina e Ivo Lopes Araújo, 2012)
ACABOU-SE (dir. Patrícia Baía, 2010)
FORTALEZA CITY (dir. Bruno Xavier e Valentino Kmentt, 2010)
257 M² (dir. Thais Dahas e Marco Rudolf, 2007)
[Teatro]
OUTRO PAÍS (dir. Nataly Rocha, 2019)
A TRAGÉDIA E COMÉDIA LATINO-AMERICANA (dir. Felipe Hirsch, Grupo Ultralíricos, 2016)
IMPÉRIO DAS LUZES (Grupo Aprendizes em Troca, 2014)
PORTAS ABERTAS (dir. Soares Júnior, Teatro Vitrine, 2012)
CANTO DE PORÕES E ALFORRIAS (dir. Soares Júnior, Teatro Vitrine, 2011)
ENCANTRAGO - VER DE ROSA UM SER TÃO (dir. Herê Aquino, Grupo Expressões Humanas, 2009)
RÃMLET SOUL (dir. Tiago Arraes, 2009)
CURRAL GRANDE (dir. Joca Andrade, Curso De Arte Dramática - CAD, 2008)
AUTO DA BARCA DO INFERNO (dir. Altemar Di Monteiro, Grupo Nóis de Teatro, 2007)
DEUS É MÁQUINA (dir. Joca Andrade, espetáculo comemorativo dos 15 anos do Curso Princípios Básicos de Teatro - CPBT, 2006)
DE SOMBRA E LUZ (dir. Joca Andrade, Curso Princípios Básicos de Teatro - CPBT, 2004)
O CASAMENTO DA CHAPÉU (dir. Almeida Júnior, 2004)
[Performances]
O CONTO DE LAURA (dir. Antônio Castro, performance em desfile da marca Foz, São Paulo Fashion Week, 2024)
GESTAR (performance ecológica em parceria com a Plataforma Imaginários_arte, 2023)
RESISTÊNCIA (Concepção: Natália Coehl, 69º Salão de Abril, 2018)
SINFONIA PARA UM PAÍS TRISTE (Concepção: Marina de Botas, 69º Salão de Abril, 2018)
ETERNAL VIAGEM (Declamação poética em música do disco Viagem ao Coração do Sol, do Cordel do Fogo Encantado, 2018)
[Preparação de elenco]
CABEÇA DE NÊGO (dir. Déo Cardoso, longa-metragem, 2018)
ÚLTIMA CIDADE (dir. Victor Furtado, longa-metragem, 2018)
SE ARREPENDIMENTO MATASSE (dir. Lília Moema, longa-metragem, 2017)
LANA E CAROL (dir. Samuel Brasileiro e Natália Maia, série de tv, 2017)
CURRAIS (dir. Sabina Nunes e David Aguiar, longa-metragem, 2017)
MARCO (dir. Sara Benvenuto, curta-metragem, 2017)
POP RITUAL (dir. Mozart Freire, curta-metragem, 2017)
JANAÍNA OVER DRIVE (dir. Mozart Freire, curta-metragem, 2016)
OS OLHOS DE ARTUR (dir. Allan Deberton, curta-metragem, 2015)
CIDADE NOVA (dir. Diego Hoefel, curta-metragem, 2015)
CLÍNICO (dir. Irene Bandeira, curta-metragem, 2014)
MEDO DO ESCURO (dir. Ivo Lopes Araújo, longa-metragem, 2013)
O ESTRANHO CASO DE EZEQUIEL (dir. Guto Parente, longa-metragem, 2013)
VOAR (dir. César Teixeira, curta-metragem, 2013)
[Prêmios e reconhecimentos]
- Pré-indicada ao Prêmio Platino do Cinema Ibero-americano pela Academia Brasileira de Cinema e o SICAV (Sindicato da Indústria Audiovisual) – Melhor Interpretação Feminina pelo longa-metragem Motel Destino, 2025;
- Melhor Elenco - 27º Prêmio Guarani, Nataly Rocha e Monice Mendes pelo longa-metragem Cabeça de Nêgo, 2021;
- Melhor Atriz - Prêmio Balaio (atual troféu Carlos Câmara) pela peça Curral Grande, 2008;